"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

quarta-feira, fevereiro 14, 2018

Descortinando a nossa Natureza Divina - 4/11

- Masaharu Taniguchi - 


ESTADO MENTAL INABALÁVEL

O apego abre brechas na mente

Há mulheres que são seduzidas pelos homens, porque elas tinham em suas mentes o desejo de serem seduzidas. Foram movidas pelo desejo passional, pela ilusão, que abre na mente da pessoa uma brecha por onde entra o demônio.

Reiko, a personagem do romance Ueru Tamashii (Alma faminta) publicado no jornal Nippon Keizai, foi seduzida pelo jovem Tachibana. Nesse romance, também, aparentemente, o rapaz seduziu a mulher, no entanto, consta que Reiko, casada sem amor com um homem bem mais velho, vivia insatisfeita com o casamento e sentia o desejo de ser seduzida.

Nas questões amorosas entre homem e mulher, nem sempre a culpa recai apenas no lado masculino. Na mente da mulher há uma brecha, o sentimento que busca satisfação sexual, e isso seduz o homem. Sempre o demônio penetra por uma brecha chamada desejo passional, que é um sentimento de apego.

Escrevi outrora a história de Cristo em forma de drama teatral e descrevi a cena em que Satanás tenta Jesus, do seguinte modo: "O homem bom apega-se ao bem, e nessa brecha entra Satanás. O homem mau apega-se aos desejos egoísticos, e nessa brecha entra Satanás". (A Verdade da Vidavol. 31)

Todo tipo de apego abre uma brecha para a entrada de Satanás. Se quisermos eliminar da nossa vida qualquer brecha, devemos abandonar todo e qualquer apego.

Quando nos desligamos totalmente do mundo dominado pelo tempo e pelo espaço, ou seja, do mundo fenomênico, entramos num mundo onde não existe tempo nem espaço, e desaparecem todas as brechas.

A brecha existe quando estamos no mundo de tempo e espaço, mas, se estamos no mundo sem tempo e sem espaço, já não existe brecha alguma. Devemos anular o ego e ficarmos com a mente totalmente despreocupada, mas isso não significa que devemos agir como indolentes ou idiotas. Significa não segurarmos nada, voltarmos ao nosso estado natural. Devemos estar prontos para o que der e vier, mas sem assumirmos a postura de defesa ou de ataque, a exemplo do que fez o famoso espadachim Musashi Miyamoto. Ele assumia sempre uma postura livre, que lhe dava a possibilidade de se movimentar para todas as direções a qualquer momento, não deixando brecha alguma para o inimigo.

Apegar-se ao bem, achando que está correto; apegar-se a uma religião; apegar-se ao nada, ao saber que tudo vem do nada; apegar-se aos bens materiais; apegar-se ao amor conjugal, porque é necessário que haja amor entre homem e mulher – se desse modo ficar apegado a algo do mundo fenomênico, você estará abrindo uma brecha. Para fechar essa brecha é preciso que abandone tudo. Contudo, caso se apegue a essa necessidade de abandonar, abrirá imediatamente uma brecha. É importante abandonar sem abandonar, segurar sem segurar.

Em geral, as religiões procuram, essencialmente, fazer com que os fiéis se desliguem de tudo que está manifestado no espaço tridimensional, para que, assim, revelem a natureza totalmente livre da Vida.


Conquistar a total liberdade, desligando-se até da necessidade de abandonar os apegos

Se nos apegarmos até à necessidade de abandonar os apegos, abriremos uma brecha para o apego e alguém nos dirá "Se abandonou tudo, faça o que eu lhe disser", podendo assim abandonarmos até a nossa dignidade.

Precisamos, portanto, nos desligarmos até da necessidade de abandonar os apegos. Se, desse modo, voltarmos ao nada absoluto, onde até o nada inexiste, não haverá nenhuma brecha em nossa vida e, vivendo normalmente como se nada tivéssemos abandonado, levaremos uma vida sem qualquer falha nem descuido.

Por isso, o verdadeiro modo de viver preconizado pela Seicho-No-Ie não é diferente da vida de outras pessoas. Quando abandonamos até a necessidade de abandonar, continuamos vivendo normalmente uma vida sem qualquer brecha.


Religião que faz o fiel saltar, sem titubear, de um penhasco

Antes da Segunda Guerra Mundial, havia um espiritualista chamado Kunbi Watanabe que fundou a religião Tenge. A sede central dessa entidade religiosa estava situada na região de Yokohama e administrava a Tenge Yoko, uma rede de revendas de calçados de sola de borracha. Um adepto da Seicho-No-Ie, proprietário de uma loja revendedora desses calçados, contou-me que os ensinamentos dessa religião eram admiráveis.

Também o sr. Yoshitaka Nomura, já falecido, que procedia de uma família zen-budista e foi preletor da Seicho-No-Ie havia recebido os ensinamentos do mestre Kunbi Watanabe e me contou diversos casos a respeito da força espiritual dele. O sr. Nomura me disse que ficou surpreso com as obras milagrosas realizadas pelo mestre Watanabe. Eu jamais presenciei isso, mas ele realizava proezas como a de fazer o chá de uma chavena pegar fogo só com um Kiai (*Nota: Kiai é um som que se emite no auge da concentração da força mental). Aliás, tais proezas não merecem tanta admiração, pois um mágico faz isso, mas a essência de seus ensinamentos se resumia em abandonar tudo, assim como prega o budismo, o cristianismo, a Seicho-No-Ie.

Certo dia, uma jovem adepta caminhava por uma estrada das montanhas com o mestre Kunbi Watanabe. Conversavam sobre os ensinamentos, e ele perguntou à jovem:

– É preciso abandonar tudo, senão não conseguirá encontrar o caminho da Verdade. Você consegue abandonar tudo?
– Sim, abandono tudo – respondeu a jovem.

Um dos lados da estrada por onde caminhavam era um precipício muito profundo e, nesse momento, o mestre Kunbi ordenou à jovem que pulasse do penhasco. Se não conseguisse pular, significaria que não havia abandonado tudo. Se a pessoa realmente tivesse abandonado tudo para seguir o mestre, deveria pular ao receber essa ordem. Se vacilasse, ainda não teria anulado o ego. Essa jovem, de cerca de 20 anos, pulou realmente do penhasco, mas algo a agarrou suavemente. Foi um galho de árvore onde seu vestido ficou enganchado, e ela se salvou.

Não é preciso temer nada. Se você abandonar tudo, surgirá algo que o resguardará do perigo. O próprio Universo, a própria Existência, o protegerá. Para segurar algo é preciso de força, mas, para soltar, não. E, além disso, ao soltar, pode contar com a ajuda da força de Deus, e não há situação mais cômoda.


Estado mental que adentra subitamente na terra búdica

A Verdade religiosa é extremamente simples e, ao mesmo tempo, muito severa. Quando abandonamos tudo, devemos pular realmente de um penhasco como fez essa jovem. Mesmo que alguém diga que abandonou tudo, se estiver segurando algo, estará mentindo. Se entrar na água para nadar, os pés não deverão estar pisando na areia.

O caminho da Seicho-No-Ie é muito agradável, não temos necessidade de sofrer para nos aprimorarmos espiritualmente, porque não seguramos nada na mente. Abandonamos tudo e afirmamos: "Não existem matéria, corpo carnal nem fenômenos". Isso equivale ao preceito que norteava a conduta do samurai: "O caminho de um samurai é a morte". A afirmação "Não existem matéria, corpo carnal nem fenômenos" significa que devemos abandonar tudo que considerávamos existente. Se conscientizarmos que o corpo carnal não existe, não pensaremos em ter mais saúde nem em ser curados de doença. Simplesmente saltaremos rumo à nossa missão. Saltar não significa pular realmente do penhasco. Significa deixar para trás o penhasco chamado corpo carnal e posses materiais. Para que as pessoas possam dar esse salto, pregamos que "Não existem matéria, corpo carnal nem fenômenos".

No âmbito da nossa convicção, a afirmação "Não existem matéria, corpo carnal nem fenômenos" significa transcender todas as coisas do mundo fenomênico. Jogamos o nosso corpo, as nossas posses, todas as coisas fenomênicas no fundo do vale. É um estado mental vazio, onde nada existe. Alcançando esse estado de espírito, será impossível existir a doença. Mesmo que ela pareça existir, não existe de verdade. Se o corpo físico não existe, será impossível existir doença.

Entretanto, pessoas doentes desejam que alguém cure suas doenças e pedem: "Se vou me curar pulando do penhasco, pularei, mas, por favor, curem-me". Quem diz "Eu pularei, por isso, curem-me" não está pulando de verdade. Está ainda apegado ao corpo carnal e, na verdade, não quer pular e diz "Fingirei que pulei para que eu possa ser curado". Com tal estado mental a pessoa não abandonou o corpo carnal, e será difícil obter a cura.


Dar um salto, abandonando tudo

Pessoas que dizem "Não me curei na Seicho-No-Ie apesar de ter lido A Verdade da Vida" ainda não deram o salto decisivo. Não atingiram o despertar "Não existem matéria, corpo carnal, nem este fenômeno!!".

É um grande erro pensar que a afirmação "Não existem corpo carnal nem matéria" seja apenas uma filosofia de vida da Seicho-No-Ie e que nada tem a ver com a sua vida. Se alguém dessa forma dissociar a filosofia de vida da vida prática, estará fazendo o mesmo que os budistas de até agora, ou seja, afirmando "Compreendi intelectualmente a filosofia budista, mas não me curei da doença". Quem procura a Seicho-No-Ie não deve se limitar a isso. Compreender que não existe matéria nem corpo é abandonar tudo e dar um salto decisivo. Quando você assim transcender totalmente os fenômenos, entrará no mundo onde não há tempo nem espaço, e sua Vida se fundirá integralmente com Deus. Nessa hora, alcançará o despertar espiritual e conquistará a total liberdade. E é muito natural que a doença desapareça quando a Vida desfruta de liberdade absoluta. Se ainda persistem a doença, o sofrimento e as preocupações, significa que você não deu o salto e continua agarrado ao que não existe.


Libertar-se do viver, envelhecer, adoecer e morrer

Sakyamuni fundou o budismo para libertar a humanidade dos quatro sofrimentos básicos: viver, envelhecer, adoecer e morrer. O objetivo das religiões, portanto, não é o de curar determinada doença ou livrar o fiel de algum sofrimento específico. É o de fazer o fiel adentrar no mundo onde não há o viver com sofrimento, o envelhecer, o adoecer e o morrer. Lança-o dentro do mundo onde não existe o sofrimento da vida, no mundo onde não existe envelhecimento, no mundo onde não existe doença nem morte. Tem o objetivo de fazer com que o fiel se lance dentro do mundo onde não existe velhice, estando no mundo onde há envelhecimento; de fazer com que o fiel se lance dentro do mundo onde não existe doença, estando no mundo onde há doenças!

Faz também com que o fiel que permanece no mundo do corpo carnal, no mundo onde existe tempo e espaço, tome consciência do seu eu espiritual que não se encontra neste mundo. Em consequência, no mundo do corpo carnal também ocorrem graças temporárias, ou seja, escurecem os cabelos grisalhos, desaparecem as rugas, ou acabam os sofrimentos da velhice. Entretanto, essas graças não são graças verdadeiras, tal como Bodhidharma disse categoricamente ao imperador da dinastia Liang: "Não existe graça alguma!"

Portanto, mesmo que as doenças se curem e os cabelos grisalhos fiquem pretos, as graças materiais não são eternas. São fenômenos temporários. Mesmo que uma pessoa de 70 anos rejuvenesça tendo os cabelos grisalhos totalmente escurecidos, ela não viverá eternamente no mundo fenomênico, sem envelhecer, pois acabará envelhecendo e morrendo.

Esses acontecimentos do mundo fenomênico são sombras da mente e, mesmo que aconteçam momentaneamente, não significam que a pessoa adentrou no mundo onde não há envelhecimento. É impossível não ocorrer envelhecimento no mundo onde existe o tempo. Não importa se os cabelos são grisalhos ou pretos, deve-se saltar para dentro do mundo da Imagem Verdadeira, sem se importar com as graças fenomênicas. Nessa hora, a pessoa alcançará um estado mental firme e inabalável, a verdadeira salvação. Seja qual for o estado fenomênico da pessoa, ela transcenderá a vida e a morte, os sucessos e os fracassos fenomênicos, e adentrará no mundo onde não existe tempo nem espaço, no mundo onde já está salva.


Transcendendo o tempo e o espaço

Esse é o objetivo das religiões, e é por isso que o budismo também ensina a seguir o caminho da Verdade abandonando naturalmente os vínculos de amor e os apegos mundanos. Tanto a religião Tenge fundada pelo mestre Kunbi Watanabe que deu ordem para saltar, quanto a religião Tenri que prega "Entregue tudo para Deus", são todas iguais. Levam os fieis a abandonar tudo o que existe no mundo do tempo e do espaço e a saltarem para o mundo onde não há tempo nem espaço. Aí vivenciarão verdadeiramente o estado de liberdade infinita, como experiências de suas próprias Vidas. Desse modo, viver ou morrer, tudo ocorrerá em total liberdade. Os ensinamentos que só são compreendidos intelectualmente não são religiosos. A religião faz com que a Vida da pessoa salte verdadeiramente para dentro do mundo que transcende o tempo e o espaço, e alcance um estado mental inabalável.

Existe abalo quando ainda permanecemos no mundo onde existe a abertura do espaço e a corrente do tempo. Nesse mundo temos incertezas, perturbações e inquietações mentais. Quando estamos no mundo onde não existe tempo nem espaço, permanecemos inabaláveis tendo ou não rugas do envelhecimento, ocorrendo ou não a morte do corpo carnal aqui, neste momento.

Aliás, nesse estado mental, não morreremos mesmo que nos matem. E, como ocorreu com Jesus que foi crucificado, a própria crucificação se transforma em ressurreição. Descobrimos aqui e agora o eu que parece morrer mas não morre e vive eternamente. Se chegarmos a esse ponto, não pensaremos mais nas graças fenomênicas tal como desejar a cura da doença, mas veremos que a doença não existe e transcenderemos o mundo da causalidade.

Quem diz "Se cometer tal pecado, sofrerá consequência" está se referindo ao mundo da causalidade que, na Seicho-No-Ie, é chamada de Verdade Horizontal. Quando transcendemos o mundo da Verdade horizontal e adentramos no mundo da Verdade vertical, alcançamos o estado mental em que conscientizamos que somos a própria Vida de Deus, que tem dentro da mão o tempo e o espaço, e também colocamos todo o Universo sobre a palma da nossa mão. Ocorre isso quando penetramos no mundo que transcende o tempo e o espaço.


sábado, fevereiro 10, 2018

Descortinando a nossa Natureza Divina - 3/11

- Masaharu Taniguchi - 


AUTOCONFIANÇA E O DESTINO DO HOMEM

Tenha autoconfiança

A maioria dos jovens pensa equivocadamente que nasceu com poucos dotes, tem complexo de inferioridade e, devido a isso, restringe a capacidade inata, não conseguindo crescer adequadamente. Entretanto, boa parcela dos que se tornaram grandes líderes mundiais, dirigentes de grandes organizações, renomados inventores ou então notáveis estadistas, pareciam, à primeira vista, indivíduos medíocres, mas, em certa oportunidade, conseguiram sucesso em algo que realizaram, tomaram consciência de que são capazes e adquiriram autoconfiança. Assim, passaram a se esforçar seriamente na direção indicada por essa autoconfiança.

Por maior que seja o seu talento inato, ele não se manifestará enquanto você não empenhar esforços no sentido de aprimorá-lo, assim como uma barra de aço de boa qualidade não se transforma num perfeito e excelente aço enquanto não for temperada.

É necessário que, antes de tudo, você tenha autoconfiança. É preciso adquirir, fundamentalmente, a convicção de que é filho de Deus.

Muitos fatores contribuem para o nosso aprimoramento e enriquecimento pessoal neste mundo. Um deles é a influência dos parentes e amigos. Às vezes, conseguimos um bom emprego graças a essa influência. Outras vezes, muitas concretizações nos são facilitadas por termos bons amigos. Quem nos encoraja na hora do desespero é um amigo, como também aquele que nos alegra com a sua solidariedade quando lhe fazemos confidências.

Um amigo pode nos emprestar dinheiro ou nos oferecer um trabalho. Entretanto, por mais que tenhamos trabalho e dinheiro, se não tivermos autoconfiança, não conseguiremos manifestar nossa capacidade toda no trabalho e não utilizaremos adequadamente o dinheiro. Há dificuldades em qualquer trabalho. A autoconfiança é a força motriz que vence essas dificuldades e faz com que a pessoa deixe de encará-las como uma dificuldade.


O impasse faz manifestar a força infinita

Na qualidade de filhos de Deus, todos nós possuímos um talento inato. Basta nos esforçarmos para cultivar esse talento que conseguiremos ser alguém maravilhoso. A maioria, contudo, acaba permanecendo na camada social inferior, por achar que é mais cômodo depender de alguém ou imitar outra pessoa, em vez de cultivar a sua autonomia e revelar plenamente o seu talento. O ser humano possui força infinita e, numa circunstância de impasse, manifesta uma capacidade até então desconhecida. Entretanto, quando fica esperando que alguém o salve, não consegue manifestar seu talento congênito.

Não foi um fato gratificante, mas há um exemplo que pode ser citado aqui. Na Segunda Guerra Mundial, o Japão revelou tamanha pertinácia e intrepidez que os EUA se viram num impasse, e, para nos derrotar, deveriam, a qualquer custo, usar uma bomba bem mais potente do que qualquer outra já existente. Isso fez com que desenvolvessem a energia atômica, levando-os a produzirem armas nucleares. Assim é a força gerada numa situação aparentemente sem saída.

Atualmente (década de 70 a 80), porém, a corrida nuclear entre EUA e URSS chegou a um impasse, e isso está contribuindo para desenvolver ainda mais a criatividade dessas duas nações. É realmente lamentável que a capacidade humana seja usada para a produção de poderosas armas destruidoras. Contudo, torna-se evidente que não há limite dessa capacidade. Quando se encontra num impasse, o homem é capaz de realizar feitos maravilhosos. Tal é a capacidade humana.


Deus salva aquele que se salva por si

Aliás, certas pessoas caem realmente no desespero e se descontrolam em situações de extrema dificuldade. Tais pessoas perderam a autoconfiança. Enquanto tiverem autoconfiança, conseguirão, com certeza, despertar em si uma força bem maior que a manifestada normalmente. E a fonte dessa autoconfiança é a convicção "O homem é filho de Deus".

Além da autoconfiança, é preciso se esforçar, pois, se ficar esperando que alguém faça algo para si, sem empenhar qualquer esforço próprio, fará com que a capacidade latente adormeça.

Às vezes, encontramos pessoas que ficam a pensar comodamente "Deus fará isso da melhor forma", achando assim que têm fé, mas estão redondamente enganadas. "Deus salva aquele que se salva por si" – este é o mote da obra Self Help de Samuel Smiles. Deus está dentro de nós, e não devemos pensar comodamente que "Ele fará da melhor forma", sem evocarmos a força infinita alojada em nós.

Aquele que pensa "Quero um trabalho mais fácil possível" está criando um futuro infeliz. Só um jovem que enfrenta espontaneamente um trabalho difícil, com confiança, tem a garantia de um futuro promissor.

Não se deve ficar na dependência de outras pessoas. Não conte com a influência do presidente ou dos diretores da empresa onde trabalha. Se você se acomodar numa posição por demais vantajosa, sua capacidade adormecerá, tal qual um gato que dorme no sofá.

Não permita que sua força interior adormeça. Só quem abandona decididamente a almofada macia, a bengala, tudo que lhe traz dependência, e avança sem jamais esmorecer, consegue exteriorizar infinitamente a força que tem dentro de si.

Não é muito difícil dirigir um carro numa estrada larga, reta e com pouco movimento. No entanto, por ser fácil demais, não desenvolve a destreza do motorista. Para ser um bom motorista é preciso dirigir em estradas estreitas e íngremes das regiões montanhosas, enfrentando o perigo de cair do penhasco, como também numa avenida movimentada onde os carros andam quase colados uns aos outros.

Tomei como exemplo a habilidade de dirigir um carro, mas, na nossa vida, estão concentradas muito mais pessoas do que carros numa avenida movimentada. Quem decidir ser o campeão da humanidade, deve empenhar esforços para vencer todas as dificuldades. O ser humano revela ao máximo a sua potencialidade apenas em momentos de extrema dificuldade, e não quando está andando calma e despreocupadamente. Na hora do desespero, a pessoa revela ao máximo a sua força interior, a força de filha de Deus que, em situações normais, fica adormecida. Se a pessoa revelar uma vez essa força, sentirá maior autoconfiança e, na aventura seguinte, manifestará força ainda maior.

Sem uma constante luta contra as adversidades, o homem não revela sua capacidade máxima nem aperfeiçoa seu caráter. Enquanto permanecer na água agarrado a alguém, não aprenderá a nadar de fato. Somente conseguirá nadar se for levado para local de maior profundidade e, soltando a mão do treinador, nadar sozinho, com seu próprio esforço. Do mesmo modo, quando abandonar o sentimento de dependência, nascerá na pessoa o espírito de independência, e ela dará o primeiro passo com autoconfiança.


Confie no seu Eu verdadeiro

Sentimos muitas vezes que a ajuda de alguém nos salvou, mas isso cria em nós um espírito de dependência. Acabaremos habituados com as facilidades e ficaremos com um caráter fraco, que conta sempre com a ajuda do próximo. Essa ajuda, portanto, não trará felicidade para a nossa vida. Não devemos pensar que o indivíduo que nos empresta dinheiro quando estamos em dificuldades é um bom amigo. Um diretor que aumenta o salário de um funcionário indolente, apenas levando em consideração o tempo que ele está nesse emprego, não pode ser considerado um bom dirigente, mas sim aquele que recompensa o empregado de acordo com o esforço que ele despende no trabalho, pois está exercendo a função de fazê-lo exteriorizar a força adormecida no seu interior.

Há uma frase nas Palavras de Sabedoria que clama: "Levanta-te com a tua força". Quem só consegue caminhar usando bengala é um coxo. Uma pessoa que só consegue caminhar na estrada da vida dependendo de alguém, nada mais é que um "coxo". Por que há tanta gente sofrendo na sombra da sociedade? Em certa parte, porque o sistema social é falho (e considero uma atitude nobre lutar para a reforma desse sistema), mas não devemos esquecer que há pessoas, mesmo dentro desse sistema, aprimorando dia a dia a sua capacidade e conquistando posições cada vez mais elevadas.

As falhas do sistema social são meros obstáculos semelhantes aos usados propositadamente no hipismo. Um cavaleiro habilidoso ultrapassa esses obstáculos com brilhantismo e alcança a linha de chegada em primeiro lugar. Se você ficar culpando as condições externas porque não conseguiu exteriorizar sua capacidade, sem refletir sobre sua falta de desempenho, de autoconfiança, de esforço, jamais conseguirá desenvolver sua força interior de filho de Deus. Você é filho de Deus! Você possui o poder de dominar seu ambiente! Acredite mais, muito mais no seu Eu verdadeiro!

Se existe alguém neste mundo que mereça menosprezo, é o covarde que transfere a causa do seu fracasso para condições alheias a si, para a influência de outras pessoas.

Devemos saber que só será possível manifestar ao máximo a nossa capacidade inata, quando nos conscientizarmos de que somos antes de tudo filhos de Deus, possuidores da infinita força interior, que só se manifesta através da autoconfiança e esforço próprio ao transpor cada obstáculo.


quarta-feira, fevereiro 07, 2018

Descortinando a nossa Natureza Divina - 2/11

- Masaharu Taniguchi - 


COMO CONHECER A IMAGEM VERDADEIRA (JISSÔ)

Imagem Verdadeira é "nada" e ao mesmo tempo "infinita"

Certa ocasião, o sr. Tanaka veio de Kyoto e solicitou-me que lhe explicasse melhor sobre a Imagem Verdadeira. Eu já havia falado muito sobre a Imagem Verdadeira em diversos locais, mas ele me pediu que lhe explicasse mais detalhadamente. Contudo, não sendo possível ver a Imagem Verdadeira através dos olhos físicos, é muito difícil explicá-la por meio de palavras que foram feitas para falar de coisas visíveis, como é o caso da atual linguagem corrente. Por isso, é inevitável que a explicação se torne alegórica, metafórica e simbólica.

"Conhecer a Imagem Verdadeira" em termo zen-budista é kenshô. A sílaba shô significa natureza verdadeira. Kenshô, significa ver a natureza verdadeira da nossa Vida. Ken tem o sentido de ver e, ao mesmo tempo, de manifestar. A Imagem Verdadeira da Vida do homem se manifesta quando a visualizamos. Ver, visualizar e manifestar têm o mesmo sentido. Portanto, kenshô significa ver e manifestar a natureza verdadeira do homem.

Entretanto, a definição da Imagem Verdadeira da Vida do homem é impossível de ser feita através de palavras, por mais que se tente, e o zen-budismo diz gonsen fugyu, ou seja, não se chega à conclusão alguma, por mais que alguém discorra sobre isso. Dizem também que, sendo difícil transmitir através das palavras, transmite-se de mente para mente. Desse modo, a Imagem Verdadeira é algo que acreditamos ter compreendido para, no instante seguinte, acharmos que nada entendemos a seu respeito, sendo muito difícil compreendê-la e transmiti-la a outrem. É difícil transmitir, mas isso não significa que devemos ficar quietos, sem nada falar sobre ela. Se num Grande Seminário o palestrante ficasse calado, ninguém iria ouvi-lo. Isso deixa o preletor que tenta explicar sobre a Imagem Verdadeira numa situação desesperadora.

Diz-se que houve certa ocasião em que Sakyamuni subiu ao púlpito  e permaneceu imóvel sem nada dizer. Olhando bem, ele estava dormindo, soltando até baba pela boca. Então, Manjusri bateu um pedaço de madeira contra outro, avisando o termo do sermão, deixando perplexas as pessoas presentes. Isso consta numa escritura de certa seita zen-budista.

Sendo impossível explicar sobre a Imagem Verdadeira através de palavras, é preferível tirar uma soneca no púlpito, como fez Sakyamuni, a proferir uma palestra malfeita. Tal é a dificuldade de expressar em palavras a Imagem Verdadeira. Portanto, não adianta o leitor interpretar mecanicamente as palavras que escreverei a seguir, porque não conseguirá entender realmente. É preciso compreender telepaticamente, captando a atmosfera das palavras.

Deus é nada e ao mesmo tempo infinito. Sendo assim, a Imagem Verdadeira da Vida do homem, que emana de Deus, é também nada e infinita. Então, o corpo carnal que existe e é finito, não pode ser o Eu verdadeiro. Ele é um agrupamento de cinco agregados, constituídos de matéria, dos cinco sentidos, do pensamento, da ação, da consciência.O corpo carnal, portanto, não é o eu. Ele é uma projeção na tela do mundo fenomênico do filme composto pelo agrupamento das diversas ondas mentais. Este corpo é simples sombra, conforme a letra do Canto da Vida Eterna: "Este corpo é como a miragem, é como o eco...". A fonte dos versos desse canto está na Sutra Vimalakirti. O corpo carnal, portanto, é igual a uma miragem, um eco: parece ser real, mas é irreal e efêmero. Não existe corpo carnal. Não existe matéria. Se me perguntarem por que não existe, só posso responder: "Não existe, porque é inexistente". Mas essa resposta não satisfaz a quem ouve, nem a quem fala, e por isso preciso explicar o que é a nossa natureza verdadeira de uma forma compreensível.


O "vazio" se movimenta e dá origem a tudo

Pensem bem. Nada existia num passado muito remoto. Não havia planeta Terra, o Sol, as estrelas, nenhum corpo celeste, nada. Não foi a matéria que começou a entrar em ação onde nada existia. Se a matéria ainda não existia, tudo era imaterial. Foi algo imaterial que começou a se movimentar. Uma substância imaterial manifestou-se em forma de matéria e começou a se movimentar. A força motriz inicial que deu impulso a esse movimento não era uma energia material, pois não existia a matéria. Era uma energia imaterial, invisível aos sentidos, portanto, o "vazio". Esse "vazio" começou a se movimentar e deu origem a tudo. Tudo veio do vazio.

Não se movimentou de modo desordenado. Movimentou-se de forma absolutamente ordenada, respeitando uma ordem matemática e criou o átomo, a molécula, os corpos celestiais. Criou de forma extremamente elaborada um sistema articulado, tão exato a ponto de a Terra circular ao redor do Sol durante um milhão de anos sem atrasar um só segundo. É impossível criar algo tão elaborado ao acaso e sem obedecer às leis. Lei é manifestação da sabedoria. A energia imaterial que deu origem ao Universo possui uma Sabedoria misteriosa. Essa Sabedoria misteriosa não é a inteligência que está no cérebro de fulano ou sicrano. É a Sabedoria que preenche todo o Universo. O fato de a lei da Natureza estar relacionada com o todo comprova que essa Sabedoria misteriosa está presente em tudo.

Explicarei com exemplo o fato de a Sabedoria onipresente no Universo estar atuando em todo o Universo. Uma planta floresce aqui neste local. Por que desabrocha uma linda flor? Porque a flor deseja que uma abelha ou uma borboleta pouse nela e, ao sugar o seu néctar, leve o seu  pólen para outras flores. As flores têm aquele colorido vivo para chamar a atenção dos insetos. Nessas plantas, porém, não existe um "Centro de pesquisa das abelhas", nem um "Centro de pesquisa das borboletas". Por isso, se a Sabedoria inerente nelas precisasse de pesquisas, não saberia o que as abelhas desejam delas.

Logicamente, os vegetais não possuem cérebro. Mesmo que tivessem cérebro, na mente cerebral não existe centro de pesquisas, e não saberiam que tipo de vegetal agrada as abelhas. Por outro lado, as abelhas não encomendaram o néctar aos vegetais dizendo: "Gostamos de néctar e desejamos que o produzam para nós. Em troca, faremos a polinização". A planta não recebeu encomenda alguma, nem realizou pesquisas, mas sabe desde o início quais cores agradam as borboletas e as abelhas, como também de qual elemento elas gostam.

Desse modo, o mundo animal e o mundo vegetal são totalmente diferentes, mas os vegetais e os animais, embora pertençam a mundos diferentes, conhecem um ao outro e se relacionam mutuamente. Percebe-se que mantêm reciprocamente uma relação de interesses. Está evidente que a Vida que criou os vegetais e a que criou os animais são uma só. Mas não adianta pedirem para mostrar-lhes essa Vida, porque isso é impossível. Essa Vida impossível de ser mostrada é a Imagem Verdadeira. A Imagem Verdadeira em si não pode ser mostrada, mas, explicando sobre as coisas que surgiram dela, pode-se compreendê-la de modo considerável.


Ver as coisas através da mente

Quando estive em Shimonoseki em viagem de conferência, falei num amplo auditório de uma escola primária. Era um dia quente de verão e, lá pelas 16 horas, quando os raios solares começaram a penetrar transversalmente através dos vidros das janelas, o auditório esquentou ainda mais. Terminada a conferência, fui para a casa do sr. Jiichi Furutani, que antes morava em Shingai, e descansava após o jantar, quando apareceu a sra. Hiroko Inoue, professora primária.

Não costumo receber as pessoas que me procuram na minha casa de Tóquio, mas às vezes atendo as pessoas quando estou em viagem. Não atendo a ninguém em minha residência, porque estou sempre escrevendo. Se eu receber alguém interrompendo o meu trabalho, a minha mente capta as vibrações da atmosfera dessa pessoa e, até conseguir retomar a concentração, não consigo realizar um bom trabalho. E se eu receber uma pessoa e não outra, a que foi rejeitada virá se queixar revoltada "Por que me discriminou?". Como não tenho tempo para receber todas as pessoas que me procuram, não há outra alternativa senão estabelecer a regra de não receber ninguém, em absoluto.

Nessa ocasião, porém, a sra. Hiroko Inoue me procurou bem na hora do jantar e, então, pedi-lhe que entrasse. Começamos a conversar e ela me disse:

– Professor, graças ao senhor, vi o Sol pela primeira vez.
– Como? Nós vemos o Sol todos os dias – disse admirado.
– Acontece que, até hoje, jamais havia visto diretamente o Sol. Eu leciono numa escola primária, onde toda manhã dou aula de ginástica no pátio da escola. Fico de pé na parte oeste do pátio, voltada para o leste. Nessa hora, o Sol sobe do leste e eu fecho os olhos, sentindo-me ofuscada pelo seu brilho. Queria ver como era a forma do Sol, mas não o conseguia. Hoje, durante a palestra, o senhor disse que o mexilhão não possui olhos, mas consegue enxergar. Ouvia isso, quando comecei a sentir muito calor por causa dos raios solares que penetravam pela janela e olhei, sem querer, para o lado. Vi, então, nitidamente o enorme Sol que se punha no horizonte, Professor, entendi que realmente nós vemos com a mente, e não com os olhos.


O mexilhão possui olhos?

Havia, citado nessa palestra um professor de biologia de certo Colégio Feminino que perguntou às alunas:

– Vocês sabem a razão pela qual a concha do mexilhão é preta? Quem souber, levante a mão.
Muitas alunas levantaram a mão.
– Você, pode falar – o professor indicou uma delas que se levantou e respondeu:
– O mexilhão é preto para se proteger dos predadores. Ele muda a cor da sua concha de acordo com a cor do ambiente em que se encontra.
O professor disse:
– Muito bem, você respondeu corretamente.
Nisso, uma aluna ao lado levantou a mão e disse:
– Professor, tenho uma pergunta. O mexilhão não possui olhos, então como ele sabe a cor da terra ao seu redor?

O professor não soube responder a esta pergunta.

Se o mexilhão não possui olhos, como consegue saber que está num lugar escuro e escurece a cor da sua concha? Não é possível dar resposta à essa questão através do pensamento materialista. Esse professor não soube responder à pergunta da aluna, porque pensa erroneamente que só se enxerga através dos olhos físicos. Consta na Sutra Sagrada Palavras do Anjo que, segundo relatório do grande médico italiano Lombroso, um paciente sofreu deslocamento do sentido da visão e passou a ver com a ponta dos dedos; ocorreu nele uma transferência dos sentidos. Nas extremidades digitais não existem globo ocular nem nervo óptico, mas ele enxergou. Aliás, isso é muito conveniente, pois, se quiséssemos espiar por uma fresta, bastaria colocar o dedo. Esse fato comprova que o elemento que capta os sentidos não se encontra no corpo nem nas células nervosas, mas na mente. Por isso, ocorre o que consta na Sutra Sagrada Palavras do Anjo: "Quando a mente decide ver, até as extremidades digitais são capazes de ver. E, mesmo na ausência de extremidades digitais, consegue-se ver e também ouvir".

Todos sabem que a terra é um mineral e que o mexilhão é um molusco pertencente ao reino animal. O mineral e o animal pertencem a reinos diferentes, mas nota-se que o mexilhão possui uma mente que vê o mundo mineral, sem ter olhos. A inteligência do mexilhão e a inteligência que fez a terra preta são originalmente uma só. Por isso, o mexilhão sente a cor da terra, mesmo sem ter olhos, e faz com que sua concha tenha a mesma cor. Um mexilhão colhido na areia tem uma cor levemente marrom, porque ele percebeu, mesmo sem ter olhos, que a areia ao seu redor é marrom.

Este foi um dos assuntos sobre os quais discorri durante a conferência naquela escola primária. Bem no momento que falei sobre isso, mais ou menos às 16h30, os raios do Sol quente de verão penetraram pelo vidro da janela, e a professora primária, sra. Hiroko Inoue, deu uma olhada para o lado e viu nitidamente o Sol, grande e redondo, que brilhava esplendorosamente no poente, lançando seus raios dourados. Por isso, ela veio me agradecer dizendo: "Graças ao senhor, vi o Sol pela primeira vez".

Existe uma comunicação entre a Vida do molusco (animal) e a da terra (mineral), porque os minerais e os animais são originariamente manifestações de uma única Vida. Também a Vida da borboleta, a da abelha e a da flor, que citei anteriormente, estão interligadas por uma única Vida, apesar de pertencerem a reinos diferentes, o animal e o vegetal. Sendo assim, nem é preciso dizer que, apesar de estarem fisicamente separados uns dos outros, a Sabedoria misteriosa que criou o ser humano é a Vida universal única. Essa Vida universal que nos criou é a Imagem Verdadeira.


Tudo está dentro do nada

A Imagem Verdadeira é, portanto, a Vida universal única, que é originariamente o nada, vazio, mas que está presente em toda parte. Dizendo assim, parece se tratar de algo totalmente vazio, sem nenhuma substância, mas não é isso. Dentro do nada existem todas as formas. A essa forma que existe dentro do nada dá-se o nome de ideia original. Ideia original é, portanto, a forma genuína não materializada que se encontra dentro do nada. Poderia dizer que é uma forma mental, uma forma imaterial.

Pensamos comumente que seja impossível ter forma se não houver matéria, mas não podemos pensar numa forma sem a matéria, uma forma genuína imaterial? Experimente pensar nisso. Perceberá que é possível existir uma forma no mundo mental. Na nossa imaginação podem existir formas genuínas que não necessitam de matéria, nem qualquer outro componente. Essas forma genuínas, de infinitas espécies, já existem de modo latente no vazio. Por isso, diz-se que é um mistério, que é gonsen fugyu, ou seja, impossível de explicar.

No vazio não existe matéria, não existe nada. No entanto, dentro dele existe a forma genuína, a forma infinita. Para explicar isso, costumo citar o exemplo da semente de ipomeia. Dentro dessa semente existe a forma da flor de ipomeia, apesar de ser impossível vê-la, mesmo que alguém a observe com o mais potente microscópio. Enquanto a semente estiver viva, dará origem a um pé de ipomeia, seja qual for o ambiente onde for plantada e seja quais forem os elementos do fertilizante. Isso não significa que elementos materiais estejam dispostos dentro da semente em forma daquela flor. A forma invisível da flor de ipomeia está, digamos, dentro ou por trás da semente. Num ponto que transcende o mundo material, existe a genuína forma da flor, a forma criada pela mente, a forma imaterial. Espero que tenha compreendido.

Essa é a ideia original que existe infinitamente no mundo da Imagem Verdadeira. Por isso se diz que a imagem Verdadeira não tem forma mas, ao mesmo tempo, tem infinitas formas. Dentro do mundo da Imagem verdadeira existem as formas genuínas da flor de ipomeia, do Taniguchi, do Kimura, do Yamaguchi, enfim, de tudo e todos. Existem infinidades de formas genuínas, mas, não sendo formas materiais, permanecerão indestrutíveis por toda a eternidade. Elas se manifestam dando origem às diversas formas materiais. A essas manifestações chamamos de "fenômeno", que pode ser destruído porque é material. Entretanto, a Imagem Verdadeira que é imaterial, que é apenas uma forma mental (ideia original), jamais será destruída. A Imagem Verdadeira do homem jamais se destruirá, porque é o homem da ideia original. Essa forma genuína chamada ideia original foi criada pela palavra (pensamento) de Deus. Essa é a razão por que coloquei a pronúncia "palavra de Deus" no ideograma que representa ideia original em algumas passagens da coleção A Verdade da Vida.


Jisso - Imagem Verdadeira da Vida

segunda-feira, fevereiro 05, 2018

Descortinando a nossa Natureza Divina - 1/11

- Masaharu Taniguchi - 


O MAIS IMPORTANTE DESPERTAR DE QUEM BUSCA A VERDADE

"Aprender o que tu és"

O mestre Dogen, fundador da seita budista Nippon Soto, ensinou: "Aprender o caminho de Buda é aprender o que tu és; aprender o que tu és é esquecer-te de ti". Esse ensinamento não se restringe ao caminho de Buda. Pode-se afirmar que essa é a essência de todas as religiões, e, como todos sabem, Sócrates também disse "Conhece-te a ti mesmo". Então, que vem a ser esse "tu", esse "a ti mesmo"? Penso que é extremamente grande o número de pessoas que consideram esse "tu" seja o corpo carnal.

Descartes disse "Eu penso, logo existo", mas há uma pessoa que afirmou o contrário: "Eu existo quando não penso". O mestre budista Sekito disse: "Para um iluminado, não existe o eu e também não existe nada que não seja eu". É dito que no budismo existem 84 mil portas que conduzem à sua doutrina, mas certa pessoa disse que todas elas se resumem em "Inverter a ilusão e alcançar a iluminação". Pode-se afirmar que não é apenas o budismo que almeja alcançar a iluminação, mas todas as religiões. Na Sutra Sagrada Chuva de Néctar da Verdade, consta: "Supor existente o que é inexistente, nisto consiste a ilusão". Ilusão é o pensamento que inverte a posição do céu e da terra. O corpo carnal não existe originariamente, sendo apenas "sombra da mente", porém, pensam inadvertidamente que esse corpo seja o homem verdadeiro e que a mente seja reflexo do estado físico. A isso se diz ilusão, ou pensamento invertido.

Enquanto a pessoa estiver se dedicando ao treinamento espiritual com esse pensamento invertido, por mais tempo que dedique, jamais conseguirá compreender a Verdade. Tal pessoa estará querendo obter vantagens para si, utilizando-se dos "ensinamentos da Verdade", pensando em como aplicar esses ensinamentos e a lei mental para satisfazer seus desejos. Estará se esquecendo de que "Treinamento espiritual é aprender o que sou, e aprender o que sou é esquecer-me de mim". Em vez de esquecer-se do eu, estará segurando-o firmemente.

Há também pessoas que, dizendo-se colaboradoras voluntárias, pensam: "Eu estou me dedicando tanto para o bem desta academia". No entanto, quem pensa "Eu estou..." não está servindo para o bem estar alheio, mas servindo ao próprio eu. Se, agarrando-se firmemente ao eu, a pessoa pensa com arrogância/orgulho "eu estou dando a minha colaboração", está ignorando totalmente o preceito "Aprender o que tu és é esquecer-te de ti". Um treinamento espiritual precisa ter como base a questão "Quanto consigo esquecer-me de mim?". "Inverter a ilusão e alcançar a iluminação" significa abandonar o falso eu e revelar o  Eu verdadeiro que é originalmente puro e imaculado.

Eu verdadeiro não é o corpo carnal e, não tendo forma, não contém originalmente impureza alguma, sendo absolutamente puro. Referindo-se a isso a seita zen-budista diz: "Ikka myojyu" (Uma esfera iluminada).

Quando esse eu informe projeta suas ondas invisíveis no "aparelho de televisão" chamado órgãos dos sentidos, essas ondas invisíveis aparecem em forma material, em forma de corpo carnal e isso faz com que o homem se apegue a essa forma, achando que ela existe. Apegando-se, as ondas se paralisam e ficam maculadas. O homem pensa  que é essa coisa maculada e passa a achar que é importante cuidar dela, cuidar do seu corpo físico. Pensa, então, que "vivificar a si mesmo" significa cuidar com carinho de seu eu carnal. O auto-respeito é um sentimento muito enganoso, sendo preciso abrir bem os olhos da mente para distinguir claramente quais são as reivindicações do Eu verdadeiro e quais do falso eu. O treinamento espiritual consiste em fazer essa distinção e, expulsando o falso eu, procurar vivificar o Eu verdadeiro.

"Hyojyo doji raiguka" (O fogo busca o fogo; o eu busca o eu)

Essa situação foi igual também no passado. Há uma história de certo sacerdote que, apesar de ter ficado três anos num templo zen-budista praticando disciplinamento espiritual e ocupar o cargo de coordenador dos serviços do templo representado pelo sacerdote-mor, não conseguia distinguir claramente o Eu verdadeiro do falso eu. Era o monge Gensoku, discípulo do mestre zen Hogen, fundador da seita Hogen. Certa feita, o mestre Hogen perguntou ao sacerdote Gensoku:

– Quantos anos já se passaram desde que você veio para este templo?
– Já se passaram três anos – respondeu o monge Gensoku.
– Está aqui há três anos e você não me perguntou ainda sobre os ensinamentos de Buda. Por que não me pergunta?
– Eu estive anteriormente no templo do mestre Seiho, e lá me ensinaram tudo sobre os ensinamentos de Buda. Por isso, nada perguntei ao senhor – respondeu assim o sacerdote Gensoku, e o mestre Hogen lhe perguntou novamente:
– Muito bem. E com que palavras você compreendeu a Verdade?
– O mestre Seiho me ensinou dizendo: "Hyojyo doji raiguka".
– São palavras realmente maravilhosas. E você compreendeu seu verdadeiro significado?
– Hyojyo é o mesmo que hinoe hinoto. Hinoe significa irmão mais velho do fogo e hinoto, irmão mais novo do fogo. Raiguka quer dizer "filhos do fogo buscam o fogo", ou seja, eu sou originalmente um Buda e este Buda busca Buda. Eu compreendi com isso que sou, desde o princípio, um Buda.

Ouvindo isso, o mestre Hogen censurou-o aos brados:

– Você não entendeu nada!! Se é isso que você compreendeu até hoje, nada sabe sobre os ensinamentos de Buda.

Aqui está um ponto muito importante. Não há erro algum na afirmação "Eu compreendi que sou, desde o princípio, um Buda", mas o sentido destas palavras se inverte totalmente dependendo do ponto de vista da pessoa, ou seja, se ela considera o ser humano um corpo carnal ou um ser espiritual. Se a pessoa considerar como manifestações da natureza búdica os desejos do corpo carnal que emergem do seu interior, e aceita-os tais quais são, pensando que satisfazê-los ao máximo seja praticar a vivificação do eu, estará invertendo o céu e a terra, interpretando que a natureza búdica seja os instintos do corpo carnal. Quem pensa desse modo, será censurado pelo mestre Hogen: "Você não compreendeu nada!!"

Ao receber essa censura do mestre Hogen, o sacerdote Gensoku, que achava já ter compreendido os ensinamentos de Buda, não conseguiu conter sua ira e saiu do templo pensando "É inútil continuar aqui junto a um velho mestre que não me compreende". Foi andando à procura de um outro local para ficar, mas no meio do caminho começou a refletir sobre as palavras do mestre Hogen:

"Será que compreendi de fato a doutrina de Buda? Será que a minha compreensão ainda é insuficiente, como me disse o mestre? O velho mestre é um grande conhecedor dos ensinamentos de Buda, e ao seu redor há sempre 500 monges praticando treinamento espiritual em busca do despertar espiritual. Não é possível que haja erro em suas palavras. Já que ele sugeriu que eu lhe pergunte algo, vou regressar para esclarecer minha dúvida".

Assim, resolveu retornar ao templo e, completamente arrependido da sua presunção, pediu perdão ao mestre, desprendendo-se totalmente do seu ego. Depois, perguntou:

– Mestre, esclareça-me sobre o Eu verdadeiro deste humilde discípulo.
– Hyojyo doji raiguka – respondeu o mestre Hogen.

Essas palavras eram as mesmas ditas anteriormente pelo mestre Seiho, cujo significado é "O fogo busca o fogo; o eu busca o eu"; porém o significado desse "eu" era diferente. "Hyojyo doji raiguka" fora dito naquela ocasião considerando ser o eu o homem carnal que busca satisfazer seus desejos físicos e materiais, mas agora foi dito considerando ser o homem manifestação da natureza búdica, portanto, significando "a natureza búdica busca a natureza búdica".

Vemos, assim, que a mesma expressão não teve o mesmo significado. "Eu já compreendi a Verdade, pois o mestre Seiho já me ensinou a doutrina de Buda. Entretanto, estou dando a minha colaboração trabalhando neste templo do mestre Hogen" – este é um estado mental de muita presunção, pois demonstra que, apesar de ter compreendido teoricamente que "a natureza búdica busca a natureza búdica", essa não era a compreensão verdadeira. Só se compreende a verdadeira natureza búdica, quando desaparece o eu presunçoso e a pessoa atinge o estado de total abnegação.

Também nas Academias de Treinamento Espiritual da Seicho-No-Ie existentes em diversos locais, comparecem pessoas carregando seu ego nas costas, pensando "Eu vou alcançar alguma iluminação espiritual" ou "Vou pedir que me curem da minha doença". Essas pessoas não compreenderam nada, mesmo conhecendo teoricamente que "O homem é filho de Deus, possui dentro de si a natureza divina e, portanto, a natureza divina busca a natureza divina". Ao abandonar esse ego que vieram carregando nas costas, ele desaparece. Se, desse modo, atingirem o estado mental que nada deseja para si, pensando unicamente em "Ser útil à felicidade do próximo", a verdadeira natureza búdica se revelará, fazendo desaparecer as doenças bem como o vício de entorpecentes, porque "Para o iluminado, inexiste o eu, como também nada existe fora dele". Segundo o ensinamento zen, quando a pessoa viver na prática esta Verdade, ela será dona da sua vida.


sexta-feira, fevereiro 02, 2018

Postura mental correta para ler obras da Verdade


- Gustavo -


A partir de hoje darei início a uma série de textos nos quais a Verdade é explicada de forma maravilhosa por Masaharu Taniguchi. A fim nos prepararmos devidamente para a leitura dos textos que virão, é importante atentarmos para a maneira como iremos ler estes textos. Um texto da Verdade – que comporta a Verdade, que busca revelar a Verdade – não é um texto qualquer. Por isso não deve ser lido de uma "maneira qualquer". Há uma forma correta de nos posicionarmos diante de um livro ou obra da Verdade. Se fizermos isso, conseguiremos aproveitar de fato a leitura de um texto sagrado; nossa mente e nosso espírito serão verdadeiramente enriquecidos. Do contrário as palavras nos servirão apenas para acumular mais e mais "informação intelectual".

Este é, portanto, o objetivo do presente post: preparar nossa postura mental (interna) a fim de nos tornarmos receptivos ao conteúdo sublime (transcendente) de uma escritura sagrada. Isso é o que ajudará nossa mente a despertar. Atentem para o que será dito no presente post e o empreguem na leitura de todos os textos, livros e escrituras sagradas.

A Verdade é Sagrada. A palavra "santo" ou "sagrado" significa "aquilo que está aparte, aquilo que está separado". A Verdade está separada do mundo. Isso é assim porque ambos apresentam naturezas distintas e incompatíveis. A luz está separada das trevas – as trevas não podem coabitar com a luz. A realidade está separada da ilusão – a ilusão não pode existir no mesmo espaço onde existe a realidade. O divino está separado do mundano – o mundano é de natureza física, material, dualística; e o divino é de natureza metafísica, mística, de unidade. O que é de natureza mística não pode estar presente/misturado ao que tem natureza material – ele permanece separado, transcendente, inviolável, sagrado. Coisa alguma de natureza mundana é capaz de se aproximar da Verdade Sagrada. Para que haja a aproximação do divino, é necessário afastar-se do mundo e consagrar-se.

E o que é a Verdade? É a realização (sentimento/experiência) de que o homem é filho de Deus. Por ser filho herdeiro de Deus, o homem compartilha da mesma natureza (essência) de Deus, sendo um ser totalmente realizado, amoroso, bem-aventurado, livre, feliz. O filho de Deus é uno com Deus e, por conseguinte, uno com todos os filhos de Deus. Assim, todos os filhos de Deus, juntos, constituem a Filiação Divina, ou seja, são o Filho Unigênito de Deus. Em todo o universo só existe a unicidade, e essa unicidade em si é Amor. Deus é Amor. Deus é todo esse universo divino e glorioso Se expressando. Essa verdade sagrada pode ser vista e experienciada. Quando essa verdade está presente na consciência (no interior) do homem, a vida no mundo físico reflete todas as qualidades conscientizadas.

Em todos os lugares pessoas estão se empenhando para conhecer Deus. Buscam alcançar o divino através de ensinamentos contidos em livros, em palestras, ou até mesmo mediante contato direto e pessoal com professores espirituais. Em todos esses casos, as práticas mencionadas devem ser realizadas com imensa veneração e sacralidade para que se obtenha um resultado realmente frutífero, proveitoso. Qualquer atividade ligada ao sagrado deve ser encarada como uma sadhana (prática espiritual realizada com espírito de reverência e disciplina), porque isso é o que ela realmente é: uma prática espiritual.

A Seicho-No-Ie, por exemplo, considera fundamental a prática concomitante de três disciplinas espirituais a fim de que o homem possa realizar em si a vida de Deus: 1) Leitura constante de livros da Verdade; 2) Dedicação de amor ao próximo através de atos concretos; 3) Prática diária de Oração/Meditação. Todas essas práticas, se imbuídas do correto estado de espírito (estado de espírito consagrado), conduzem o ser humano ao verdadeiro conhecimento da Verdade. Mas o  objetivo deste texto é falar principalmente sobre a melhor maneira de se proceder à leitura das obras espirituais, sagradas – principalmente aquelas que intentam comunicar a Verdade indizível. É muito importante termos a compreensão de que o estudo de uma obra sagrada não serve apenas de instrumento para conduzir à execução de determinada prática espiritual. Ou seja, não se trata só de um "meio" para  se atingir um "fim". Sua leitura é um fim em si mesmo, constituindo ela própria prática espiritual. Nem todo ensinamento ou mestre apresenta essa visão.

A Verdade Sagrada não pode ser comunicada através das palavras. Palavras, por si só, são limitadas, fragmentadas, dualísticas, e não conseguem expressar o que é de natureza transcendental, inteira, unida. Conhecer a Verdade é ser a Verdade. Diferentemente dos conhecimentos acadêmicos que podem ser adquiridos no mundo, o conhecimento da Verdade ao mesmo tempo que é "conhecimento" é também "experiência", "vivência", "realização". A natureza do mundo é tal que permite que as coisas primeiro sejam conhecidas e posteriormente executadas. A natureza mundana permite existir separação entre conhecimento e prática. Com a Verdade, o mesmo não ocorre. Em se tratando da Verdade, "conhecer a Verdade é ser a Verdade".

Por isso, uma obra espiritual não deve ser lida do mesmo modo como se faz com artigos escritos nas enciclopédias, livros, revistas e jornais. A leitura de livros sagrados feita por meio de uma postura mental (ou estado de espírito) mundana mantém a separação entre "conhecimento" e "experiência", e o conhecimento da Verdade fica reduzido a algo puramente intelectual, teórico – estéril e infrutífero. Mediante tal procedimento não se alcança grandes resultados na caminhada espiritual. A leitura de uma obra da Verdade deve ser feita com total sacralidade.

Através da leitura de livros (ou audiência de palestras), o entendimento da profunda verdade espiritual não depende (nem ocorre através) das habilidades de pensamento, raciocínio, reflexão, contemplação, inteligência e demais capacidades da mente. A Verdade Sagrada transcende completamente a mente humana. Sempre que um indivíduo alcança a percepção, a compreensão (ou mesmo um lampejo) da Verdade, isso ocorre mediante processo sublime: a fonte emissora do conhecimento transcendental está situada em um espaço sagrado que não pode ser alcançado ou violado pela mente. A transmissão do conhecimento ocorre no âmbito desse mesmo espaço sagrado, além da mente. Por sua vez, a fonte receptora em nós que capta e apreende o conhecimento também habita esse espaço sagrado e misterioso para a mente.

Em outras palavras, eis o modo como se dá este processo: a vibração divina impregnada no livro (ou que emana das palavras e da presença do palestrante) se comunica com a mente divina em nós. Com isso, a presença divina em nós é tocada tal qual um sino que passa a vibrar e soar... e então desperta. E enquanto ocorrer a ressonância (enquanto estiver desperta) tem-se a compreensão ou lampejo. Todo o processo de comunicação (emissão, transmissão e recepção) ocorre a nível supra mental. O que desperta o Sagrado em nós é a vibração das palavras pronunciadas pelo Sagrado presente na fonte emissora da mensagem. Então o conhecimento sagrado é verdadeiramente captado (sentido, experienciado). Nesse sentido, Masaharu Taniguchi assim explica:

A definição da Imagem Verdadeira da Vida do homem é impossível de ser feita através de palavras, por mais que se tente, e o zen-budismo diz que não se chega à conclusão alguma, por mais que alguém discorra sobre isso. Dizem também que, sendo difícil transmitir através das palavras, transmite-se de mente para mente. Desse modo, a Imagem Verdadeira é algo que acreditamos ter compreendido para, no instante seguinte, acharmos que nada entendemos a seu respeito, sendo muito difícil compreendê-la e transmiti-la a outrem. É difícil transmitir, mas isso não significa que devemos ficar quietos, sem nada falar sobre ela. Se num Grande Seminário o palestrante ficasse calado, ninguém iria ouvi-lo. Isso deixa o preletor que tenta explicar sobre a Imagem Verdadeira numa situação desesperadora.

Diz-se que houve certa ocasião em que Sakyamuni subiu ao púlpito  e permaneceu imóvel sem nada dizer. Olhando bem, ele estava dormindo, soltando até baba pela boca. Então, Manjusri bateu um pedaço de madeira contra outro, avisando o termo do sermão, deixando perplexas as pessoas presentes. Isso consta numa escritura de certa escola zen-budista.

Sendo impossível explicar sobre a Imagem Verdadeira através de palavras, é preferível tirar uma soneca no púlpito, como fez Sakyamuni, a proferir uma palestra malfeita. Tal é a dificuldade de expressar em palavras a Imagem Verdadeira. Portanto, não adianta o leitor interpretar mecanicamente as palavras que escreverei a seguir, porque não conseguirá entender realmente. É preciso compreender telepaticamente, captando a atmosfera das palavras. (Livro: Descoberta e conscientização da verdadeira natureza humana)

É curioso notar os termos que o autor utiliza para expressar o modo como se dá a transmissão do conhecimento da Verdade. Não somos nós – pessoas dotadas de mente cerebral que analisa, disseca, pondera, interpreta e forma conclusões – quem captamos o conteúdo vivo, verdadeiro, existente nas palavras do livro ou do palestrante. Em cada um de nós há um lugar mais profundo (e, nesse lugar, uma presença / inteligência divina) que assimila o conteúdo verdadeiro de um texto sagrado. O conteúdo formado a partir da literalidade (ou da interpretação mental) das palavras não é o conteúdo vivo e verdadeiro ao qual nos referimos. As palavras do escritor podem estar registradas no material físico (páginas do livro), mas também estão presentes em um espaço invisível onde fica depositado o conteúdo verdadeiro, resultante do estado de consciência, da inspiração, do grau de concentração, e também da intenção que o autor projeta ao fazer o arranjo dos vocábulos e das ideias utilizadas para se comunicar. A combinação de todos esses fatores cria uma "atmosfera viva" que se faz presente no texto sagrado. O que todo o leitor deve fazer é buscar perceber e entrar contato com essa atmosfera sutil que permeia o texto espiritual. Por isso, Masaharu Taniguchi diz: "transmite-se de mente para mente"... "é preciso compreender telepaticamente, captando a atmosfera das palavras".

Se conseguirmos nos conectar com essa atmosfera sutil, a verdade captada produz efeito imediato em nossa consciência. O efeito é imediato porque (ao contrário da mente humana) a mente verdadeira não oferece resistência à palavra que está sendo comunicada. No interior (espaço sagrado) de cada ser humano existe o coração puro de criança que não contesta a veracidade da Verdade. A mente humana acredita na dualidade "bem e mal" (e, consequentemente, na imperfeição), e não é capaz de aceitar a Verdade que todo o Universo é uma existência una, harmoniosa e perfeita. Portanto, a mente humana irá sempre descrer, desconfiar, duvidar, contestar e questionar. E é justamente a descrença que constitui barreira a impedir o conhecimento das verdades transcendentais. Por isso, o estado de espírito de docilidade e pureza é muito importante. Vejamos o que Masaharu Taniguchi ensina a  esse respeito:

As palavras de Deus não são meras teorias

Certo adepto da Seicho-No-Ie adoeceu e estava acamado havia mais de um mês, sem sinal de melhora. Ele sabia que a causa era a atitude mental errônea. Dizia a si mesmo que não devia guardar rancor e procurava perdoar os que o haviam magoado, mas não conseguia. Sabia que a Seicho-No-Ie, diferente de muitas outras doutrinas morais que pregam o "esforço para perdoar", ensina que o espírito de perdão deve brotar naturalmente; entretanto, não sabia o que fazer para que isso acontecesse.

Certa tarde, ele abriu o volume 1 de A Verdade da Vida e leu o trecho inicial da Revelação Divina do "Acendedor dos Sete Candeeiros", que consta nas primeiras páginas: "Reconcilia-te com todas as coisas do céu e da terra". O fato interessante é que, sem se dar conta, ele tomara a postura de meditação ao ler a Revelação Divina. Em seguida, leu outra Revelação Divina que consta no livro "Deus fala ao homem", e que, entre outras coisas, diz: "Antes de tomares a refeição, reconcilia-te com teus irmãos".

Ele já havia lido essas Revelações Divinas em outras ocasiões, mas era a primeira vez que lia com sentimento de reverência e com a convicção de que se tratavam de palavras transmitidas diretamente por Deus. Enquanto as lia, experimentou uma agradável sensação de leveza, e percebeu que já não nutria ressentimento contra ninguém. Foi como se tivesse se livrado de um fardo pesado. A agradável sensação de leveza tomou conta dele, e a doença sarou como que por encanto.

Ele compreendeu, então, como era importante a postura mental correta quando se lê livros que contêm as palavras de Deus. Até então, a postura mental dele quando lia as Revelações Divinas era a de procurar analisar, compreender e assimilar o ensinamento nelas contido. Pela primeira vez, compreendeu realmente que as palavras contidas no livro A Verdade da Vida são palavras de Deus e que, lendo-as com fé e espírito de reverência, as vibrações que delas emanam produzem grande efeito, mesmo que não sejam entendidas ou memorizadas. Foi uma descoberta maravilhosa compreender que as palavras de Deus não são teorias a serem analisadas e compreendidas, e que cabe a nós simplesmente acreditar nelas e reverenciá-las.

Em Gênesis 1;3, assim consta: "Exista a luz. E a luz existiu". Não nos cabe argumentar ou discutir "por que Deus ordenou que existisse a luz?", "por que a luz surgiu conforme a ordem de Deus?", etc. As palavras de Deus são sublimes e cumprem-se infalivelmente, pelo próprio fato de serem palavras de Deus. Assim, uma vez que Deus disse: "Reconcilia-te com todas as coisas do céu e da terra", não nos cabe questionar o por quê. Quando lemos essas palavras com muita fé e reverência, vemo-nos reconciliados naturalmente com todas as coisas do céu e da terra. (Livro: A Verdade da Vida, volume 34)

Concluindo: não somos nós (pessoas dotadas de mente humana) que temos poder para abraçar a Verdade. Somente Deus em nós é capaz de aceitar a veracidade da Verdade. Também não somos nós quem percebemos a Verdade – Deus em nós é que percebe. E é também Deus quem realiza as obras. Isso é o que torna possível experimentarmos resultados imediatos, mesmo em caso de não entendermos ou de não prestarmos atenção ao conteúdo comum das palavras contidas num livro sagrado. Apreendendo o sentido dessa Verdade, constatamos também que as palavras presentes na literatura sagrada são palavras de Deus, que não foram escritas por criatura humana, mas que provêm do próprio Eu, que é a fonte divina da qual emana todo ensinamento verdadeiro. A compreensão da Verdade somente se torna possível ao receber a Graça divina. A percepção da Verdade também ocorre somente pela Graça divina. E o que fazer para receber a Graça? A Graça vem somente onde há sacralidade. Graça e sacralidade caminham sempre juntas, de mãos dadas. Por isso, as obras da Verdade devem ser vistas como sagradas. E de fato o são! Todo ato de ler um livro ou texto espiritual consiste em sadhana, uma prática espiritual sagrada.

Namastê!

 

terça-feira, janeiro 30, 2018

Oração para eliminar a ilusão e contemplar o mundo da Imagem Verdadeira


- Masaharu Taniguchi -


Oração para eliminar a ilusão e contemplar o mundo da Imagem Verdadeira de felicidade eterna:

Existem muitas pessoas que vivem temendo a ocorrência de infortúnios, doenças ou acidentes, considerando-os castigos de Deus. Há também religiosos que amedrontam as pessoas com ameaças de "punição divina" ou "castigo do céu", para induzi-las a se converterem à seita ou religião deles. Tanto esses religiosos, como as pessoas que neles acreditam, estão errados.

A Bíblia ensina que onde existe o amor perfeito não há medo, e que o amor perfeito é manifestação de Deus. Portanto, o verdadeiro cristianismo não suscita temor nas pessoas, e os verdadeiros cristãos não procuram converter as pessoas com ameaças de "castigo divino".

Também no budismo, o Hannya Shingyō (Prajfiã-paramitã-sutra) diz: "Eliminando-se a ilusão, desaparece o temor". Isto significa que a fé religiosa que suscita temor não é verdadeira, sendo apenas ilusão camuflada de fé. Ilusão é como sonho; é ver aspectos contrários à realidade. Pode acontecer de alguém, no sonho, ver-se submetido a um terrível castigo e, acordando, perceber que estivera sonhando e soltar uma risada de alívio. Julgar "existente" o que "não existe" - este pensamento contrário à realidade é ilusão. Pode acontecer, também, de alguém sonhar que perdeu algo e, acordando, constatar que esse algo permanece ali, diante de seus olhos. O mesmo ocorre com a ilusão. Pode-se dizer, portanto, que ilusão é "pensamento invertido", ou seja, julgar "existente" o que "não existe", e vice-versa. Por isso, o Hannya Shingyō afirma que o estado de ilusão é como o sonho no qual a pessoa julga ser real o que não existe realmente; ensina que neste mundo criado por Deus não há criatura alguma e coisa alguma capaz de nos infundir medo, e diz que é preciso abandonar o "pensamento invertido", isto é, a ilusão, pois assim o medo desaparecerá.

Tudo que existe de verdade é obra criada pelo Deus único. Deus, o Criador, é Bem infinito, é possuidor de Sabedoria infinita. Portanto, neste mundo criado pela Sabedoria infinita de Deus não existem falhas nem incoerências. Este mundo só pode ser um mundo perfeito onde todos os seres vivem em total harmonia, ajudando e complementando uns aos outros. Por isso, basta abrirmos os olhos da mente, eliminarmos a ilusão e contemplarmos a Imagem Verdadeira para que todos os males - originalmente inexistentes - desapareçam por completo. Desaparecendo a ilusão, ocorre a cura da doença, cessa o conflito, ninguém permanece pobre ou feio. E assim podemos descortinar, neste mundo que habitamos, o aspecto perfeito do mundo da Imagem Verdadeira onde existe a felicidade eterna.

Eliminemos a ilusão. Na verdade, o mundo que habitamos aqui e agora é a manifestação exata do mundo da Imagem Verdadeira, onde reinam o bem e o belo supremos e a felicidade eterna. Tendo recebido a revelação desta Verdade, contemplo neste momento o mundo onde reinam o bem, o belo e a felicidade eterna, e o meu coração pulsa de alegria infinita.

Agradeço a Deus por esta bênção. Muito obrigado.

(Do livro: A Verdade em Orações, vol. 2)

sexta-feira, janeiro 26, 2018

Agradecer a Deus porque já somos saudáveis!

- Masaharu Taniguchi -


AGRADEÇAMOS A DEUS ADMITINDO QUE JÁ SOMOS SAUDAVEIS.

Se um doente não consegue recuperar a saúde, é porque está agarrado à idéia de que está doente. Se os diversos métodos de terapia, as orações e a leitura de livros sagrados não surtem efeito, é porque ele pensa: “Preciso me curar porque estou doente.” Dessa forma, ele está agarrado á idéia “porque estou doente” e está lutando contra ela. “A doença não existe” – isto é a Verdade, é o Jissô. Se queremos despertar em nós esse Jissô saudável, não devemos ficar mantendo a ideia “porque estou doente”. Assim, não conseguiremos firmar a ideia de que a “doença não existe”. Se abandonarmos a ideia “eu estou doente” e a substituirmos pela ideia “eu sou saudável”, a doença será curada.

Então, como faremos para consegui-lo? Para isso, devemos agradecer a Deus, admitindo que já somos saudáveis e que fomos criados perfeitos. Tomemos a postura de Shinsokan e agradeçamos a Deus da seguinte forma: "Deus é o todo de tudo, é Vida de Deus, sabedoria de Deus e amor de Deus. E eu, não fugindo à regra, também sou preenchido pela Vida perfeita, sabedoria perfeita e amor perfeito de Deus. Por isso, tenho saúde perfeita. Realmente, tenho saúde perfeita. Obrigado, Obrigado. Realmente, agora tenho saúde perfeita. Obrigado, Obrigado...".

Estas palavras de agradecimento, ditas com a real sensação de que somos saudáveis, têm força para afastar o pensamento "quero me curar porque estou doente". É bom repetirmos mentalmente várias vezes o último trecho, com emoção, até que se crie essa sensação dentro de nós: "Realmente, agora tenho saúde perfeita".



segunda-feira, janeiro 22, 2018

O profundo significado da "tentação"

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- Joel S. Goldsmith - 


"Em seguida, foi Jesus levado pelo espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo diabo. Jejuou quarenta dias e quarenta noites. Depois teve fome. Então se aproximou dele o tentador e disse-lhe: Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se convertam em pão. Respondeu-lhe Jesus: Está escrito: Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus." (Mateus 4: 1-4)

Vemos aqui o grande e profundo significado da tentação.

Esta passagem mostra o exemplo típico de fidelidade à essência de todos estes ensinamentos, ante à tentação que sentimos de concentrar o pensamento e a atenção nas coisas deste mundo, isto é, nas necessidades externas, e demonstrar o poder de produzir efeitos extraordinários, como a provisão de alimentos mediante a operação de um milagre.

Jesus sabia que essa não era a maneira de se demonstrar a presença de Deus como suprimento de nossas necessidades.

O meio de demonstrá-la consiste em se viver permanentemente numa atitude interna que se pode traduzir nestes termos: Uma vez que Deus é consciência divina, e que a consciência é a substância e atividade criadora de todas as formas, enquanto eu viver, me mover e tiver ao meu ser como consciência espiritual, todas as formas de suprimento aparecerão sem que eu me preocupe com elas. Esta era a resposta de Jesus a todas as tentações.

Esta deve ser também a tua resposta. Em vez de trabalhar, isto é, de fazer trabalho mental, quando se te apresente qualquer problema, lembra-te de que já aceitaste os dois grandes mandamentos de Jesus: "Não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer, nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir" e "Buscai, pois, em primeiro lugar, o Reino de Deus e Sua justiça (verdade), e estas coisas vos serão dadas de acréscimo."

Quando te sentires tentado a usar esta verdade para obter um emprego, ou para efetuar uma cura ou fazer alguma coisa no plano externo, dize como Jesus, a ti mesmo:

"Eu não vivo somente de pão, mas de toda a palavra que procede da boca de Deus. Não vivo de suprimentos externos. Estes são coisas recebidas de acréscimo, que me vêm às mãos espontaneamente, como um desdobramento natural do meu estado de autorrealização em Deus, a Consciência divina, que está sempre Se manifestando como minha consciência individual. Ela é a fonte do meu suprimento; logo, não preciso fazer magia. Não preciso que o eu pessoal se arvore em demonstrador de poderes. O único EU, o grande EU SOU, está governando, mantendo e sustendo Sua própria imagem e semelhança. Se tentar fazer milagre, se tentar fazer demonstração de poder, estarei criando um eu separado de Deus, revestindo-me, assim, de uma personalidade que não é de Deus. Deus está sempre mantendo o que é Seu."

Por ceder à tentação de demonstrar poderes é que a mente humana entra em conflito e cria sofrimentos. Por exemplo, o filho pródigo, não estava satisfeito em viver só dos bens de seu pai, e por isso, saiu de casa, partiu para o mundo, com o desejo de abrir se próprio caminho na vida. E sabes como acabou.

Na Antiguidade, deu-se à origem do mal o nome de “diabo”. O diabo não é nem nunca foi uma pessoa. O diabo, ou mal, é algo de natureza impessoal. É possível que ele apareça como pecado, delinquência juvenil, falso desejo, doença incurável, pobreza, ou morte.

Entretanto, seja qual for o nome ou natureza, aquilo que se põe à sua frente é um mal único.  Empregamos para ele a designação “mente carnal”, dada por Paulo, ou algum outro termo, como “aparência” - matéria, por exemplo.  A discórdia ou tentação não é uma entidade ou identidade física; ela é uma “aparência”, um produto da mente carnal: a crença em dois poderes.


"Então o diabo o levou à cidade santa, colocou-o sobre o pináculo do templo e disse-lhe: 'Se és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo; porque está escrito: Recomendou-te a seus anjos que te guardem ... para que não tropeces em alguma pedra.'"

"Replicou-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus." (Mateus 4: 5-7)

Se temos o próprio Deus como nossa consciência, se Deus é a nossa Alma, Mente e o Ser que Somos, acaso precisaremos produzir anjos, alguma espécie de efeitos extraordinários para nos segurar, amparar e ajudar?

Precisaremos de alguma coisa além de Deus? Não nos tornaremos idólatras quando recorremos a algo que não seja Deus, a algo menos que Deus para nos manter? Acaso não será isso pecado contra o nosso próprio senso de vida espiritual?

Quando formos tentados a recorrer ao homem cujo fôlego está no seu nariz, quando formos tentados a confiar em alguma forma humana de Deus, ainda que nos pareça como um anjo, lembremo-nos da tentação de Jesus. Perguntemo-nos a nós mesmos: Tenho alguma necessidade de anjos? Necessito de algum auxílio? Necessito de alguma forma menor de ajuda, mesmo que seja a do pensamento humano?


Ainda o diabo o transportou a um monte muito elevado, mostrou-lhe todos os reinos do mundo e sua glória, e disse-lhe: Todas estas coisas te darei se, prostrando-te em terra, me adorares.

Ordenou-lhe Jesus: Vai para trás, Satã, porque está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a ele servirás!

Então o diabo o deixou, e eis que vieram anjos e o serviram. (Mateus 4: 10-11)

Quando compreender a Deus como Onipotência, estará habilitado a se livrar do mal sob todas as formas, mediante as seguintes palavras: “Nenhum poder terás sobre mim, a não ser que tu venhas de Deus. Ao lado de Deus não há nenhum outro poder; e o Poder divino é presente tanto no céu como exatamente aqui onde eu estou.” Mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.

De vez em quando, todos nós somos tentados a dar as costas ao nosso mais elevado senso de Alma, a fim de melhorar nosso destino neste mundo; somos tentados a melhorar nossa situação descendo da altura espiritual em que nos sentimos em Unidade com Deus para adotarmos uma forma de tratamento inferior; somos tentados a confiar em alguma coisa separada e independente de Deus.

E aí é que devemos resistir à tentação e aprender a ficar em silêncio, nesse estado de paz que não vê poderes em aparências.

Uma vez que Deus é a consciência individual de cada um, não precisaremos de nenhuma forma de tratamento inferior ao representado por esta certeza; não precisaremos de nenhuma ajuda humana, nem sequer sob forma mental.

Precisaremos somente estar sempre seguros de que Deus é a nossa consciência individual.
      
Comecei dizendo que devemos todos chegar a um nível de consciência que nos permita saber o que é Deus. E agora volto ao assunto. Deus é o princípio deste universo, mas se manifesta como consciência individual. É o principio do teu e do meu universo individual e a lei para a tua e para minha vida.  

Nossa experiência externa é determinada pelo nosso, o teu e o meu grau de autorrealização em Deus – a Lei, a Vida Divina-, que atua como tua consciência individual. Isto, porém, não significa que cada um de nós seja ou tenha um Deus separado, mas quer dizer que, não obstante cada indivíduo possuir consciência ilimitada, essa consciência individual ó o único Deus, o Onipotente.
       
No entanto, enquanto não soubermos que, como consciência individual, temos o nosso ser em Deus e que em Sua eterna presença vivemos e nos movemos, não estaremos recebendo Sua orientação e proteção no que estejamos fazendo neste mundo.

Para isso, precisamos saber que Ele é a divina realidade de nosso ser; precisamos senti-lo mais perto que o próprio ar que respiramos. Este é o segredo.

Não basta saber intelectualmente que Deus é a Vida eterna. Precisamos estar extremamente conscientizados disso, como estava Jesus, quando declarou: Eu sou a vida eterna. Nesse estado de ser, ele não disse que Deus era a vida eterna, nem que Deus era o caminho, mas afirmou: Eu sou o caminho. 

Em outras palavras: Tudo o que Deus é, Eu sou; tudo o que Deus tem, Eu tenho, porque Eu e o Pai somos um.

Compreendes que para poderes ajudar alguém não deves voltar as costas à tua própria consciência, à Consciência-Deus? Antes, pelo contrário, deves permitir que haja em ti aquela paz e confiança que Jesus demonstrou ao vencer as tentações.

Não deves esquecer essa história das tentações no deserto. Lembra-te que Jesus estava no cume do monte, mas com sua consciência divina. Lembra-te de que ele sabia que sua própria consciência era a fonte de todo bem.

Cada um de nós, uma ou outra vez, será solicitado a ajudar alguém. Alguns serão chamados para ajudar a muitos. Para isso, nenhuma lição será de maior valor que esta que te estou dando agora. Começa hoje, neste momento: Lembra-te de que o que atua em benefício da tua família, dos teus negócios, de teu lar, do teu corpo, é a tua consciência, e não um deus distante. É a tua própria consciência individual, quando em silêncio e paz.

Tudo o que tens ou terás de fazer quando fores chamado, será conseguir esse estado de paz.

Não te preocupes em aprender grandes verdades. Provavelmente não existe verdades maiores do que as que já conheces.

Há, porém, uma coisa que deves conseguir pela prática da meditação: um estado de paz interior ligado à compreensão de que o Cristo que cura é a tua própria consciência.

Quando houver em ti aquela mente que havia em Cristo Jesus, e que é o que cura, tu o saberás. Estarás então nesse estado de paz que resulta da compreensão espiritual de que o erro não é poder, porque não é real. E não o combaterás, não lutarás com ele, não procurarás algemá-lo, nem passarás a noite sentado, de vigília, para teres a certeza de que ele não te vencerá. O que deves fazer é procurar aprender como encontrar a tua paz.

Quando andares pelo mundo com essa sensação de paz – com essa paz que só se pode experimentar quando se compreende que Deus É Tudo e que o erro não é -, quando sentires essa sensação de paz, será porque já terás atingido a Consciência Crística, que é a tua consciência individual, quando já não temes, não odeias nem amas o erro, qualquer que seja seu nome ou natureza.

Não temos feito os trabalhos de cura que deveríamos fazer, e em quase todos os casos a razão é sempre a mesma. É a nossa curiosidade em saber quando a mente de Deus fará alguma coisa em benefício do paciente, ou quando o Amor divino começará o trabalho, ou quando entraremos em contato com o Amor divino, o Espírito que cura.

Deste modo, não podemos e nunca faremos o trabalho que deveríamos, porque, no caso, a curiosidade implica em negar a verdade de que Mente de Deus é a nossa mente individual, de que o Espírito é o nosso espírito individual, e o Amor divino é o amor de que estamos impregnados como consciência individual. E só alcançamos o nível de consciência que faz o trabalho de cura quando nossa mente está em paz.

Se alguém te pedir ajuda, estarás no dever de entrar no estado de paz que excede todo o entendimento humano, e então este estado de paz será para toda crença errônea o mesmo que foi a ordem de Jesus para aquela tempestade no lago Tiberíades.

O praticante de cura espiritual precisa viver, mover-se e ter seu ser nesse estado de paz que produz a cura, nesse estado de harmonia, bem-estar e confiança, nesse estado de transparência espiritual.

Nesse estado de transparência, tua consciência individual (e a minha) é Deus! E Deus, a verdadeira consciência do indivíduo, é o que cura.